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Odisseia

 

Título: Odisseia

Autor: Homero

Gênero: Mitologia / História

Editora: Martim Claret

Idioma: Português

Numero de paginas: 416

Ano de Lançamento: 2002

Virou filme? Sim.

Sobre o autor

Na maioria das vezes que lemos um livro, temos pouca necessidade de conhecer dados sobre a vida do autor. Quem foi e onde viveu são, normalmente, questões irrelevantes para apreciarmos a obra.

Todavia, esse não é o caso das obras de Homero: Ilíada e Odisséia, pois a influência delas na formação

Resenha

A história do herói grego Odisseu tentando voltar para casa para os braços de sua esposa Penélope e do seu filho Telêmaco depois da Guerra de Tróia é considerado por muitos como o primeiro romance ocidental e fonte de estudos para Mitologia, Ética e Filosofia. Além disso, a jornada de Odisseu é repleta de aventuras, não faltando monstros e inimigos a serem vencidos com bravura e inteligência.

 

Porque ler esse livro?

Primeiro, porque faz parte do currículo do Ensino Médio, ou seja, sua professora de Língua Portuguesa irá cobrar a leitura; segundo, porque é um clássico da literatura ocidental, sendo referência para o entendimento de muitas outras obras que citam a história dos heróis gregos, em especial Odisseu; e terceiro, porque para quem gosta de histórias de aventuras esse texto é garantia de diversão e boas horas de leitura.

 

Resumo e interpretação do texto para quem quer saber mais.

O que Homero nos conta na Odisséia é a história da viagem de retorno ao lar de Odisseu, herói da guerra de Tróia e que nas próprias palavras de Zeus era “aquele que a todos os mortais supera em inteligência”

Odisseu é um herói diferente do herói grego tradicional, pois superava as dificuldades conforme lhe apareciam, o que significa utilizar para cada uma delas uma estratégia diferente. Odisseu não é moralmente tão rígido, por exemplo, como Aquiles, pois planejava a solução mais adequada para cada situação. Se em um determinado momento Odisseu concluía que teria que mentir, ele mentia; se concluía pela matança, ele matava. Odisseu não se prendia cegamente nem aos ditames morais nem se deixava abater pela natureza, logo, apresentava um grau de liberdade que é novo para o pensamento grego clássico.

O herói grego tradicional é trágico, isto é, nunca rompe sua ligação com a natureza o que é representado pela presença de uma característica marcante do herói, ou seja, poucos modos de ação, e em conseqüência disso, um destino inalterável que o abaterá no final. O herói trágico, em virtude de ter poucos modos de ação, vive por ele, erra por ele e morre por ele, isto é, é um herói justamente por ter uma característica especial que o diferencia dos outros seres humanos, mas ao utilizá-la em todas as ocasiões, mais cedo ou mais tarde incorrerá em um excesso (hybris), que se caracteriza pelo exagero da ação diante de alguma circunstância. Sem vários modos de agir, o herói tradicional incorrerá em excesso, provocando a ira divina ou da natureza que se vingarão (nêmesis) inevitavelmente.

Odisseu, por outro lado, representa o surgimento do homem livre, o homem racional, o eu, o indivíduo. Aquele que age segundo os ditames da razão e que se impõe ao ordenamento da Natureza e da Cultura no momento adequado. Isso não é nada fácil e, por isso mesmo, Odisseu é muito humano e diferente dos outros heróis. Em Odisseu convive um lado bom com outro mau; um lado racional com outro irracional. Odisseu tem de lidar com isso e adaptar-se da melhor maneira à realidade que o exige das mais variadas formas. Os outros heróis não têm essa capacidade de adaptação e conciliação de conflitos. A contradição ou excesso normalmente os destrói.

Desse ponto de vista, a Odisséia ou a história do retorno de Odisseu ao lar pode ser vista como uma metáfora para a vida humana que é cheia de dificuldades e percalços devidos a conflitos internos e à impossibilidade de controlarem-se as circunstâncias em que se vive, entretanto, através do uso da liberdade conquistada através do uso da razão, o homem é capaz de algumas correções na rota de sua viagem através da vida que nunca deixa de ser palco da infinda batalha entre destino e livre-arbítrio.

Os momentos de crise narrados por Homero propiciam o aparecimento das nuances da personalidade do herói, que surge como um homem na sua acepção plena. Odisseu não é somente louvável, mas também comete erros, mente e é ardiloso. Essa tensão também é expressa através do embate entre duas potências divinas: Atena e Posseidon. Atena representa a Cultura, a razão e a inteligência do herói. Posseidon a Natureza, o seu lado primitivo, animal e irracional.

A viagem de Odisseu é essencialmente de autoconhecimento, de superação de si mesmo. O lado selvagem de Odisseu nunca deixará de existir, mas o herói é capaz de um certo controle sobre ele, o que se não lhe proporciona escapar do destino, lhe dá a possibilidade de escolher como chegar lá.

Parece haver três caminhos possíveis para o nosso herói: o primeiro seria trilhado caso ele se deixasse levar completamente pelo seu lado animal e seguisse sem questionamento os desígnios da Natureza; o segundo seria ele torna-se imortal através do casamento com Calipso, o que lhe proporcionaria eliminar seu lado animal essencialmente ligado às necessidades mundanas; o terceiro e mais difícil é manter a contradição e seguir vivendo guiado pela razão, mas puxado pela animalidade. Odisseu escolhe o terceiro caminho, o caminho humano.

Os indícios que atestam essa interpretação estão presentes durante todo o poema.  Passo a passo, a personalidade de Odisseu vai sendo desvelada.

Já na terra dos cícones, logo após a saída da Tróade, após o término da guerra entre helenos e troianos, Odisseu desembarca com seus homens e ataca os habitantes em busca de víveres. Os cícones eram aliados dos troianos, logo, o ataque era inevitável, mas a permanência prolongada no local foi oriunda da arrogância e indolência dos marinheiros do herói, que se rebelando ao seu comando quiseram degustar a vitória além do razoável. Odisseu lembrou-lhes do destino da viagem, mas à animalidade não importa o futuro, só os prazeres imediatos. O desenlace é fatal para setenta e dois marinheiros que são mortos no contra-ataque do povo local. Se entendermos o comportamento dos marinheiros como associados ao lado irracional do ser humano, o simbolismo da morte paulatina dos homens de Odisseu durante a viagem pode ser entendido como o enfraquecimento do lado passional, muito ligado ao corpo e que enfraquece com o envelhecimento.

No país dos lotófagos (comedores de loto) o problema se repete. Alguns homens prostrados pela ingestão de um alimento que provocava o esquecimento (loto =esquecer), provavelmente algum tipo de droga, esqueciam dos seus afazeres e obrigações. Odisseu teve de utilizar a força bruta para levá-los aos barcos e partir, pois não havia acordo nem argumentos racionais que pudessem ser usados com pessoas desprovidas de razão. Nessa passagem, os homens de Odisseu assemelham-se às crianças pequenas, que com a racionalidade pouco desenvolvida têm de ser persuadidas pelo medo ou pela força física.

O conflito humano propriamente dito aparece no episódio do ciclope Polifemo. Esse ser monstruoso é descrito como desprovido de regras e sem respeito algum até mesmo pelos deuses. Polifemo representa a Natureza em oposição à Cultura e a razão. Não por acaso ele é filho de Posseidon, deus do mar, dos cavalos e dos terremotos, já adversário do herói na guerra de Tróia.

Odisseu desembarcou na ilha dos ciclopes imaginando poder trocar vinho por víveres com os habitantes locais, algo muito racional e apoiado no costume da hospitalidade, muito caro aos helenos. Sem imaginar os monstros que habitavam na região, acharam uma caverna onde havia carneiros, leite e queijo e esperaram que o dono voltasse. Os homens de Odisseu, entretanto, assolados pela fome e irritados com a demora do retorno do dono do local, não ouvem os avisos do comandante, não resistem e matam alguns carneiros do rebanho. Quando o ciclope chega, encontra os helenos e devora-os dois de cada vez. Odisseu quer conversar e fazer um acordo, mas não há acordo possível com a animalidade que terá de ser enganada e subjugada pela astúcia do herói. Odisseu perde seis homens devorados, mas ajudado pelos restantes, consegue furar o olho do monstro e fugir da ilha. O herói, entretanto, fez questão de dizer o seu nome para o monstro antes de ir embora: - Eu sou Odisseu, filho de Laertes, rei de Ítaca. Esse ato marca o aparecimento do Eu, pois é através da nomeação que se passa a ter existência para os outros, e diferencia-se do comum, do natural. Odisseu não é mais um homem, como outro qualquer na natureza, ele é Odisseu, ser social, racional e livre.

O surgimento do Eu ou Ego marca a separação na psique humana entre o mundo e o indivíduo. No desenvolvimento humano, antes dessa separação, o bebê mal percebe que ele e o mundo são coisas separadas. Essa percepção surge à medida que o bebê percebe que há objetos que ele controla totalmente, como suas mãos e boca, e outros que ele não controla ou controla parcialmente como os objetos à sua volta. Com o surgimento da individualidade também surge um conflito, pois a individualidade restringe o campo de ação das paixões, pois elas não podem se expressar totalmente, tendo de se adequar ao mundo e aos outros indivíduos. A razão é a faculdade que pretensamente deveria regular essa adequação, o que não é uma tarefa fácil.

No episódio do rei Éolo, a regulação das paixões pela razão é posta à prova e até dá certo de início, pois a relação entre os itacenses e o deus que controla os ventos é cordial e regulada pela hospitalidade, entretanto, ao voltar pra casa, Odisseu adormece, representando o adormecimento da razão. Quando isso acontece, as paixões extravasam e perde-se o controle. Neste episódio do poema homérico afloram a desconfiança e a ambição, levando os marinheiros à traição. Ao despertar, Odisseu percebe o ocorrido, mas é tarde demais para evitar as conseqüências.

Aprendida a lição, na parada seguinte, na terra dos lestrigões, Odisseu será muito prudente e não aportará o seu barco junto com o dos outros companheiros, pois desconfia do desconhecido e da impulsividade. Odisseu, diferentemente dos seus homens, tem um certo controle sobre as suas paixões e mesmo com fome, frio e cansaço, não age impulsivamente, mas planeja as suas ações e adia o prazer em prol da segurança.

Atacados pelos gigantes lestrigões, todos os homens e barcos serão mortos e destruídos, com exceção dos que estavam ao lado de Odisseu, que por aportarem longe demoraram a se reunir aos demais. Sem poder vencer de qualquer maneira, quer seja pela força ou astúcia, o herói foge do local com o barco e os cerca de cinqüenta homens que restaram.

Ao chegar à distante ilha da feiticeira Circe, Odisseu despachou um grupo para investigar as imediações, os quais são bem recebidos pela feiticeira, mas esta indignada com o comportamento pouco lisonjeiro dos hóspedes, que se portaram muito mal à mesa e abusaram da hospitalidade, transforma-os em porcos, o que é metafórico, pois eles já agiam como animais à mesa. Circe só transformou a aparência de algo que já existia em essência. Odisseu auxiliado por Hermes, utilizou sua astúcia para enganar e obrigar Circe a um acordo. Em troca de se deitar com ela por um ano, ela se comprometeu a restaurar os homens às suas formas originais. Um herói tradicional nunca aceitaria essa condição. Odisseu aceitou e conseguiu sair-se bem no final, tanto que é avisado por Circe dos perigos que enfrentaria e a maneira de evitá-los.

Ao passar pelas sereias, Odisseu tampa os ouvidos de seus homens com cera, para que não ouçam o canto irresistível desses seres alados. Odisseu, porém, pede para ser amarrado ao mastro para poder ouvir o canto sem correr o risco de precipitar-se ao mar atrás dele. O canto das sereias promete histórias sem fim, aparentemente um completo conhecimento do passado através de um mergulho sem volta. Aquele que é arrastado pelo canto das sereias esquece de sua jornada, fica sem futuro. Pode significar também um apego demasiado à tradição, que pode servir de referência, mas não pode servir de guia para todas as horas, pois as circunstâncias mudam a todo instante e o homem deve aprender com elas.

O encontro com Cila e Caribdes talvez seja a expressão daquilo que há de mais angustiante na vida humana: - as escolhas. Odisseu, como representante da humanidade, não tem de escolher entre alguma coisa boa e outra ruim, ou entre duas coisas boas, mas entre uma coisa ruim e outra pior ainda. Essa é talvez a típica escolha humana, pois é a que gera o maior conflito interno, pois não há só ausência de prazer, mas dor. Nessa passagem, Odisseu tem de escolher entre a morte de todos e a morte de seis homens. Opta pela segunda alternativa, mas com muita dor no coração. A visão dos seus homens gritando o seu nome enquanto são devorados por Cila é a visão mais lúgubre que terá na vida.

daqueles que eram chamamos de helenos foi tão grande, que o conhecimento da origem da obra e contexto do autor se torna absolutamente necessário para percebermos a sua grandeza.

Infelizmente a vida de Homero é obscura. Heródoto (século -V) situa o período de vida do poeta entre os séculos -IX e -VIII, fixando a provável data de nascimento por volta de -850 em algum lugar na Jônia, mais provavelmente Esmirna.

         São poucas as informações concretas sobre a vida de Homero. Não há nem mesmo a comprovação de que tenha realmente existido. Se aceitarmos uma das opiniões mais correntes, de que ele foi um bardo que viajava de cidade em cidade apresentando suas poesias, talvez possamos também acreditar que houvesse dúvidas sobre a cidade natal de Homero até mesmo entre seus contemporâneos. Em épocas posteriores, inclusive, relatam-se muitas disputas entre as diversas cidades-estados e suas principais famílias sobre árvores genealógicas, cada qual querendo para si o maior número de antepassados ilustres e, de preferência, divinos. Até hoje Homero é disputado por várias cidades Gregas.

         Quanto a sua aparência física, dado que não se sabe de onde veio, então fica difícil saber-lhe os traços físicos, entretanto, supõe-se que Homero fosse cego, pois seu nome parece relacionar-se com o sentido da visão, pois omma em grego é olho. Homero poderia ser então aquele que não vê ou vê demais. A conciliação ou resolução da ambigüidade, porém, poderia ser dada através da relação entre cegueira e poesia ou vidência. A falta de visão, segundo a mitologia e presente nas tragédias gregas e na própria Odisséia na figura do vidente cego Tirésias, parece ser uma característica daqueles que podiam ver o interior dos homens ou que eram capazes de prever acontecimentos. A deficiência visual parecia tornar o seu possuidor mais sensível às inspirações das Musas e dos Deuses, tornando-os mais aptos para as artes.

         Homero fica ainda mais obscuro, se tomarmos como base as obras atribuídas a ele, pois ambas parecem ser compilações de poemas anteriores, já que não se constituem de um todo único e perfeitamente coeso, como seria o caso de um único autor e obra. Homero então seria uma espécie de compilador muito habilidoso que se apropriou de mitos, histórias e lendas antigas e juntou-os em belas e planejadas composições. O próprio texto parece contradizer a idéia de um único autor, pois há várias contradições e o próprio gênero literário não é, discutivelmente o mesmo nas duas obras: A Ilíada é uma epopéia, narrando histórias ligadas às tradições militares das tribos helênicas, em suas variadas etnias, e, apesar de baseada fundamentalmente em mitos, cada vez mais se comprova a grande ligação com acontecimentos reais. A Odisséia, por outro lado, pode ser considerada uma epopéia, se lida literalmente ou um romance, se for interpretada à luz do tema universal da volta ao lar, do regresso, que está presente em inúmeras culturas e que não se fixa a nenhum lugar e a nenhuma época, mas faz parte de todos os lugares, épocas e povos, daí talvez a enorme dificuldade até hoje de encontrar-se qualquer prova da ocorrência das peripécias de Odisseu.

         Isso, entretanto, não é suficiente para provar que Homero não foi realmente o autor, pois um compilador não deixa de ser autor, entretanto, se um autor em uma determinada época compila várias histórias correntes em um poema grandioso, compiladores posteriores podem acrescentar novas histórias aos poemas originais. Vale lembrar que os poemas homéricos são originários de uma época em que ainda não havia a escrita grega, o que implica logicamente que mesmo que Homero tenha existido, provavelmente nunca escreveu seus poemas. Eles devem ter sido memorizados de geração em geração e transcritos em época posterior. Isso exigiu uma impressionante capacidade de memorização por parte dos bardos, o que foi facilitado pela forma poética, com ritmo, rima, o auxílio de música e provavelmente dança.

         Essa forma de transmissão abre a possibilidade de acréscimos e mudanças feitas pelos seus executores até chegar a uma composição final tal qual temos hoje.

         Carlos Alberto Nunes quando trata da questão homérica argumenta sobre a existência de pelo menos três autores para a Odisséia. O primeiro faz toda a base do poema, mas comete alguns deslizes quanto ao tempo da jornada, que fica curto demais para os tradicionais dez anos de duração da viagem do retorno de Odisseu a Ítaca, o que é corrigido pelo segundo autor com o acréscimo da história dos sete anos de Odisseu com a deusa Calipso. O terceiro autor acrescenta ao poema a Telemaquia, que são as peripécias de Telêmaco em busca de notícias do pai. Essa composição feita por várias mãos repara alguns problemas, mas cria outros. Há contradições em várias passagens, tanto no que tange ao itinerário de Odisseu quanto ao reconhecimento do herói por sua esposa Penélope.

         Contudo, apesar das dúvidas quanto à autoria, o nome de Homero sempre será honrado, pois através dessas obras o povo grego pôde aprender sobre suas origens, costumes, modos de pensar e agir. As crianças gregas eram educadas através desses poemas, o que em uma cultura oral, tal qual era a cultura grega até meados do século -VII é um dos fatores mais importantes para a manutenção de um sentimento de unidade cultural entre as diversas etnias que formavam os helenos.

         Homero nos trouxe notícias sobre acontecimentos que ocorreram em um período obscuro da história grega. A civilização micênica que sofreu grande influência dos minoanos de Creta, principalmente naquilo que se refere ao mar e os sucedeu, sucumbiu aparentemente em data próxima ao término da guerra de Tróia, talvez devido ao aparecimento dos dóricos.  A escrita linear B, que na época aparentemente era usada preferencialmente para assuntos contábeis desapareceu. Por séculos, os gregos ficaram sem nenhum documento escrito. Homero faz parte dessa tradição oral e suas obras provavelmente só foram transcritas muitos anos após a sua morte.

Odisseu nos mostra que não haveria angústia se as escolhas fossem sempre entre valores absolutamente distintos, como entre coisas boas e ruins, o que sugere que uma moral absolutamente rígida impede a escolha e a liberdade. A dificuldade está justamente em ser livre e ter de comparar os valores conforme as circunstâncias. O episódio das sereias e de Cila e Caribdes talvez sejam, por isso mesmo, melhor entendidos em conjunto. Na situação em que Odisseu estava, a tradição ou moral convencional eram pouco úteis, na verdade só geravam mais conflito na cabeça do herói, pois a tradição impunha que todo grego deveria ter o seu corpo presente em uma cerimônia fúnebre, o que seria impossível caso eles fossem devorados.

Apesar disso, Odisseu tomou uma decisão e aceitou as terríveis, mas inevitáveis conseqüências. Rejeitando o caminho da animalidade, representado pelos seus homens, mas também rejeitando o caminho imposto pela cultura, representado pelas sereias e por Cila e Caribdes, que impõem um dilema moral, Odisseu delineia o seu próprio caminho.

Mais tarde, com todos os seus companheiros mortos, Calipso também tentará tirar o nosso herói do seu caminho com ofertas de imortalidade, mas Odisseu resistirá, pois perceberá que sua vida só terá sentido enquanto dirigir-se para o seu destino lidando com suas contradições humanas. Que sentido teria uma vida isenta de necessidades? Que prazer pode advir sem nenhum sofrimento para equilibrar a balança?

Nessa atribulada jornada de retorno ao lar e de luta interior, Odisseu sai vitorioso, pois aceita as contradições como inerentes ao ser humano que é. Isso fica claro quando em sua última viagem faz as pazes com Posseidon por ter-lhe ferido o filho gigante Polifemo. Fica claro que para os seres humanos as contradições nunca se resolvem, apenas se acomodam. O momento da conciliação se dá muito próximo da morte, que no caso de Odisseu é em idade avançada e em paz.

 

Trajeto do Herói

1. Terra dos Cícones – ataque e contra-ataque – arrogância da vitória.

2. País dos Lotófagos – esquecimento, preguiça.

3. Ilha dos Ciclopes – mau hospedeiro – falta de razão, regras, leis, cultura. – nascimento do ego – eu através da nomeação.

4. Ilha de Éolo – traição.

5. Ilha de Éolo.

6. Terra dos Lestrigões – só o navio de Odisseu escapa – prudência.

7. Ilha da feiticeira Circe – caminho da animalidade – segue-se as paixões.

8. Hades – aviso para que sejam bons hóspedes na ilha de Hélios. E apaziguamento de Posseidon ao final: tomar um remo perfeito, terra daqueles que nunca viram o mar, nem comem comida com sal.

9. Ilha de Circe - aviso das sereias e de Cila e Caribdes.

10. Sereias – todas as memórias, passado, tradição, moral, fixidez.

11. Cilas e Caribdes – caminho humano das angústias.

12. Ilha do Deus Hélios – promessa, falta de vento, rompimento da promessa, maus hóspedes, destruição do navio de Odisseu por Zeus.

13. Cilas e Caribdes.

14. Ilha de Calipso – caminho da divindade: imortalidade e sem escolha.

15. Terra dos Feáceos – Alcino e Nausica. Vingança de Posseidon.

16. Ítaca (Telêmaco, Argos, Euricléia, Eumeu, Filécio, Penélope, Laertes)