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Dia internacional da mulher

Mar/2009

 

Apesar da notoriedade, não há confirmação nem lógica sobre a manifestação de operárias que no dia 8 de março de 1857 ocuparam uma fábrica em Nova Iorque e que foram trancadas e mortas através do incêndio do local.

É muito difícil determinar a origem de um mito, mas não há dúvidas quanto às péssimas condições de trabalho naquelas fábricas, que operavam com jornadas diárias extenuantes, em condições extremamente insalubres e empregando até mesmo crianças, pois os salários de mulheres e crianças eram muito inferiores aos dos homens.

Certamente havia muitas reclamações e reivindicações por parte de algumas mulheres, tais como: equiparação salarial, redução da jornada, melhoria das condições de trabalho e participação delas na política, mas para isso as mulheres dependiam dos homens que estavam no poder, quer fossem os donos das fábricas, os parlamentares ou dirigentes dos respectivos países. Inclusive a existência e comemoração do Dia Internacional da Mulher mostra que esses objetivos não foram alcançados na maioria dos países até hoje, onde infelizmente até hoje vigora uma mentalidade machista, onde às mulheres cabem quase sempre funções secundárias.

Segundo os anais do parlamento britânico de 1869, o primeiro a defender o voto feminino foi o filósofo John Stuart Mill e o primeiro país a aprová-lo foi a Nova Zelândia em 1893. 

 

Em 1908 foi realizada e primeira Conferência Internacional sobre o Trabalho Feminino e em 1910 foi realizada a segunda na cidade de Copenhague, capital da Dinamarca, nela, uma mulher chamada Clara Zetkin (ao lado à esquerda com Rosa Luxembrugo), líder do grupo feminista do partido Social Democrata alemão, sugeriu a comemoração do Dia Internacional da Mulher, como forma de, a cada ano e em todos os países, as mulheres terem uma data para fazerem suas reivindicações. As mais de cem mulheres presentes representando dezessete países aceitaram a sugestão de Zetkin por unanimidade e escolheram o dia 19 de março como  Dia Internacional da Mulher, por ter sido nesse dia que em 1848 o rei prussiano prometeu a introdução do voto feminino.

Em 1911 o primeiro Dia Internacional das Mulheres excedeu todas as expectativas. Em muitos países, as mulheres saíram às ruas para manifestações e encontros e seus respectivos maridos tiveram de ficar em casa cuidando das crianças.

Em 1913 a data foi mudada para o dia 8 de março, que permanece até hoje.

O reconhecimento oficial do Dia Internacional da Mulher por parte da ONU – Organização das Nações Unidas só aconteceu em 1975, sendo que em vários países é considerado feriado.

No Brasil, o voto feminino só foi conquistado em 1932 por decreto do então presidente Getúlio Vargas.

Segundo a versão paulista, durante a revolução constitucionalista de 1932, as mulheres paulistas pegaram em armas e foram para o campo de batalha contra as tropas getulistas lado a lado com os homens. Ao final do conflito, essa demonstração de coragem rendeu a elas o direito a uma maior participação política que culminou no direito ao voto. Apesar disso a discriminação continua: o rendimento médio do trabalho feminino ainda é menor, o número de mulheres nos parlamentos e nos partidos é muito inferior ao dos homens e na maioria das famílias as mulheres têm dupla jornada de trabalho, uma fora e outra em casa.

As últimas pesquisas mostram que com o aumento da escolaridade feminina, as mulheres já têm renda maior que os homens em 30% das casas, é mais freqüente a atuação delas em cargos de chefia, minando um reduto masculino e muitas delas estão se preocupando menos com o lar e mais com suas carreiras, tendo filhos mais tarde. Mesmo assim, as diferenças profissionais entre homens e mulheres ainda são grandes e a conquista da igualdade de oportunidades ainda deve levar algumas décadas para se concretizar no Brasil.

Neste sentido é interessante notar o desserviço que muitas vezes um jornal presta para uma causa tão nobre. Em editorial publicado no dia 17 de fevereiro, o jornal Folha de São Paulo usou a expressão ditabranda ao invés do usual ditadura para se referir ao regime militar brasileiro que vigorou de 1964 a 1985. Interpretações à parte, na edição de 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o jornal O Estado de São Paulo publicou algumas histórias de nomes de ruas que homenageiam mulheres, dentre elas está Sonia Maria de Moraes Angels Jones, nora de Zuzu Angel. O texto do Estadão diz o seguinte:

“...Depois de presa e liberada durante a ditadura militar, Sonia se exilou na França. Mas, em 1973, ela voltou, ao saber da prisão e desaparecimento do marido – Stuart Edgar Angel Jones. No retorno, retornou à resistência pela Ação Libertadora Nacional (ALN). No mesmo ano, foi torturada e morta pelas forças da repressão. Chegou a ter os seios arrancados. Tinha 27 anos. A família fez várias exumações até conseguir reunir todo o corpo. A última parte foi encontrada na vala clandestina no cemitério de Perus e encaminhada ao Rio, em 1991”

Sua sogra, Zuzu Angel, continuou a busca pelo corpo do filho até sua própria morte em um desastre automobilístico até hoje não esclarecido. Acredita-se que ele tenha sido jogado ao mar. O cantor e compositor Chico Buarque, que tanto mostra o universo feminino em suas músicas, tratou do episódio em sua música Angélica.

Como pode um jornal de grande circulação com a Folha de São Paulo chamar de ditabranda a um regime como aquele e prestar um desserviço desse tamanho para a memória dessas pessoas que pagaram com suas vidas por defender seus ideais.

Angélica - Composição: Miltinho/Chico Buarque

 

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

 

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar

 

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse lamento?

 

Só queria lembrar o tormento

Que fez o meu filho suspirar

 

Quem é essa mulher

Que canta sempre o mesmo arranjo?

 

Só queria agasalhar meu anjo

E deixar seu corpo descansar

 

Quem é essa mulher

Que canta como dobra um sino?

 

Queria cantar por meu menino

Que ele já não pode mais cantar

 

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

 

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar